O que é o sono e por que ele é vital
- Eloy Bezerra
- 4 de ago. de 2025
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O sono é um estado fisiológico essencial à vida, caracterizado por uma suspensão temporária da consciência e pela diminuição das atividades motoras e sensoriais. Muito mais do que um período de inatividade, o sono é um processo biológico ativo, com funções complexas e fundamentais para o equilíbrio físico, emocional e mental. Dormir bem é tão essencial quanto comer ou respirar, sendo indispensável para o bom funcionamento do organismo e para a preservação da saúde.
1.1 A natureza do sono
Durante muito tempo, o sono foi considerado um momento de “desligamento” do corpo e da mente. No entanto, avanços científicos nas áreas da neurociência, medicina do sono e psicologia demonstraram que esse período é intensamente ativo em termos neurobiológicos. O cérebro, durante o sono, realiza atividades como consolidação de memórias, processamento emocional, regeneração celular e regulação de hormônios fundamentais ao bem-estar físico e mental (Walker, 2017; Rasch & Born, 2013).
O sono é regulado por dois sistemas principais:
O processo homeostático do sono (Processo S): representa a "pressão" para dormir, que aumenta com o tempo em que a pessoa está acordada.
O ritmo circadiano (Processo C): é o relógio biológico interno, localizado no núcleo supraquiasmático do hipotálamo, que regula os ciclos de sono e vigília em um período de aproximadamente 24 horas, influenciado principalmente pela luz solar.
Ambos os processos interagem continuamente para regular o início, a duração e a profundidade do sono.
1.2 A importância vital do sono
A privação ou a má qualidade do sono tem implicações severas para a saúde. Estudos apontam que o sono insuficiente está associado ao aumento da irritabilidade, redução da atenção e concentração, prejuízo na memória e maior risco de desenvolver transtornos mentais como ansiedade e depressão (Medic, Wille & Hemels, 2017; Baglioni et al., 2016).
Além disso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece os distúrbios do sono como um problema de saúde pública global, dados os impactos diretos sobre o funcionamento diurno, a segurança no trabalho e no trânsito, e a qualidade de vida em geral.
As funções vitais do sono incluem:
Restauração física: Durante o sono profundo (estágio N3), ocorrem processos de regeneração celular, liberação do hormônio do crescimento e reparo de tecidos.
Consolidação da memória: O sono REM (movimento rápido dos olhos) está associado à consolidação das memórias emocionais e à integração de conhecimentos.
Regulação emocional: O sono ajuda na regulação da amígdala cerebral, envolvida no processamento de emoções negativas. Privação de sono intensifica reações emocionais e reduz o controle inibitório (Goldstein & Walker, 2014).
Metabolismo e imunidade: Dormir bem fortalece o sistema imunológico, regula o apetite (via grelina e leptina) e previne doenças metabólicas como obesidade e diabetes tipo 2 (Irwin, 2015).
1.3 O sono e a saúde mental
A relação entre sono e saúde mental é bidirecional. Distúrbios de sono podem predispor ou agravar doenças mentais, assim como condições psiquiátricas podem afetar a qualidade do sono. Por exemplo, mais de 90% das pessoas com depressão relatam problemas para dormir (Harvard Medical School, 2021). Além disso, a insônia crônica está associada a maior risco de desenvolver transtornos depressivos e de ansiedade.
A neurociência também mostra que a privação do sono afeta a conectividade entre áreas corticais e subcorticais do cérebro, prejudicando a tomada de decisões, a empatia e o equilíbrio emocional (Yoo et al., 2007).
1.4 Quanto tempo devemos dormir?
A quantidade ideal de sono varia ao longo da vida. Segundo a National Sleep Foundation (2015), as recomendações são:
Recém-nascidos (0-3 meses): 14–17 horas
Bebês (4-11 meses): 12–15 horas
Crianças pequenas (1-2 anos): 11–14 horas
Crianças em idade pré-escolar (3-5 anos): 10–13 horas
Crianças em idade escolar (6-13 anos): 9–11 horas
Adolescentes (14–17 anos): 8–10 horas
Adultos (18–64 anos): 7–9 horas
Idosos (65+): 7–8 horas
Dormir menos do que o recomendado, de forma crônica, está associado a um aumento significativo de riscos físicos e mentais.
1.5 Por que estamos dormindo menos?
Diversos fatores culturais, sociais e comportamentais têm contribuído para a redução do tempo médio de sono nas últimas décadas:
Uso excessivo de telas à noite, que inibe a produção de melatonina devido à luz azul.
Excesso de trabalho e cobrança por produtividade contínua, levando à negligência do sono.
Ansiedade, estresse e rotinas desorganizadas, que dificultam o relaxamento necessário para o início do sono.
Ambientes urbanos barulhentos e iluminados, que interferem no ritmo circadiano.
A “sociedade que nunca dorme”, termo cunhado por Jonathan Crary (2014), reflete uma realidade onde o descanso é subvalorizado em nome da produtividade, colocando em risco a saúde coletiva.
1.6 Conclusão
O sono não é um luxo nem uma concessão biológica — é uma função vital à sobrevivência e ao equilíbrio de todo o organismo. Sem ele, a mente adoece, o corpo enfraquece e o desenvolvimento humano é comprometido. Entender o sono como prioridade é um passo essencial para promover saúde integral. Nos próximos capítulos, exploraremos em detalhes as fases do sono, sua arquitetura e as implicações em cada etapa do desenvolvimento humano.
Referências
Baglioni, C., Battagliese, G., Feige, B., Spiegelhalder, K., Nissen, C., Voderholzer, U., ... & Riemann, D. (2016). Insomnia as a predictor of depression: A meta-analytic evaluation of longitudinal epidemiological studies. Journal of Affective Disorders, 135(1), 10–19.
Goldstein, A. N., & Walker, M. P. (2014). The role of sleep in emotional brain function. Annual Review of Clinical Psychology, 10, 679–708.
Harvard Medical School (2021). Sleep and mental health. Harvard Health Publishing. https://www.health.harvard.edu/newsletter_article/sleep-and-mental-health
Irwin, M. R. (2015). Why sleep is important for health: a psychoneuroimmunology perspective. Annual Review of Psychology, 66, 143–172.
Medic, G., Wille, M., & Hemels, M. E. (2017). Short- and long-term health consequences of sleep disruption. Nature and Science of Sleep, 9, 151–161.
National Sleep Foundation. (2015). Sleep Duration Recommendations.
Rasch, B., & Born, J. (2013). About sleep's role in memory. Physiological Reviews, 93(2), 681–766.
Walker, M. (2017). Por que nós dormimos. Objetiva.
Yoo, S. S., Gujar, N., Hu, P., Jolesz, F. A., & Walker, M. P. (2007). The human emotional brain without sleep — a prefrontal amygdala disconnect. Current Biology, 17(20), R877–R878.




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